Rosivaldo Casant
VIDA DE GADO OU NEGÓCIO DA CHINA
A metáfora “vida de gado” é uma referência ao povo em geral, que é conduzido silenciosa e vagarosamente para o matadouro
Gado na sala de aulaVIDA DE GADO OU NEGÓCIO DA CHINA
O Baião “Admirável Gado Novo”, de Zé Ramalho, vem compondo o repertório do artista desde 1979, mas foi a partir de 1996 que teve um enorme impulso, uma vez que fez parte da novela “O Rei do Gado”, como trilha sonora. A metáfora “vida de gado” é uma referência ao povo em geral, que é conduzido silenciosa e vagarosamente para o matadouro. Geraldo Vandré e Théo de Barros em “Disparada”, música cantada por Jair Rodrigues no II Festival da Música Popular Brasileira de 1966, dizia: “Na boiada já fui boi, mas um dia me montei … porque gado a gente marca, tange, ferra, engorda e mata, mas com gente é diferente … e já que um dia eu montei, agora sou cavaleiro, laço firme, braço forte, de um reino que não tem rei.” É importante que se entenda que não se busca diferenciação entre os gêneros, todos são gado. Mas quando se descobre a liberdade de ser cavaleiro e montaria, desvenda-se o reino onde não há donos, ou, pelo menos, todos são sócios. O ideal é não haver sofrimento.
Um dia desses, assistindo a um programa, não me lembro exatamente qual, sobre tatuagens, vi indivíduos com muitas tatuagens feitas pelo sistema tradicional: linhas grossas, cores primárias como vermelho, amarelo, verde, azul e preto, com design limpo, cujos temas são âncoras, navios, sereias, faróis, serpentes, caveiras, adagas, panteras, carta de baralho, dados, utilizados por marinheiros, associados à marginalidade e a rebeldia. Mas a matéria falava que ultimamente o que se buscava eram métodos mais dolorosos, em que o rito da dor era mais valorizado que a estética. Corpos se deixavam marcar por ferro aquecido no fogo, à semelhança do que é feito com o gado. Impressionante! Pensei: “Há louco para tudo! Pra tudo mesmo!” Espontaneamente, eu não imolaria o corpo em que mamãe passou talco dessa maneira. Pessoas incomodadas de serem marcadas como gado e outras não se importando em oferecer seus corpos em sacrifício a sei lá o quê. Nesse caso, o que parece é não se considerar o sofrimento.
Eu achava que era criminoso tosquiar as ovelhas e os carneiros para obter a lã, até descobrir que a tosa garante saúde e bem estar aos animais, uma vez que eles não possuem a capacidade, como gatos ou cachorros, de perda ou renovação dos fios, mantendo a mesma lã sempre, que pode crescer e se tornar muito longa e incômoda. Dá um dó enorme ver os bichinhos pelados, mas a contrapartida da boa saúde parece ser razão suficiente para que se prossiga com esse expediente secular. O aparente sacrifício é necessário para a integridade do animal e uso humano; considerando-se ainda que a tosquia é realizada em momento adequado para que não haja nenhum conflito com as intempéries climáticas. Então, estamos falando de saúde e abrigo e não de sofrimento.
Há pais que ganham muito dinheiro conduzindo seus pimpolhos pelos caminhos da publicidade, novelas e programas de televisão. Muita gente até consegue fazer um excelente pé-de-meia antes de terminar o ensino médio; e, muitas vezes, nem pensa mais em voltar à escola. Se isso não comprometer o desenvolvimento emocional da criança, levando-a ao estresse ou à exaustão, dificultando seu convívio social com outros da sua idade e com a família, entendo que tudo bem. É uma das tarefas paternas estimular o exercício das habilidades e talentos pessoais dos filhos, conduzindo-os a carreiras que lhes permitam seguir em frente; é, inclusive, legítimo. Só não pode se tornar um sacrifício, submetendo os pequenos e adolescentes a condições vexatórias e até exposição à violência. Alguns exemplos de mau assessoramento por paterno, são: Alyson Stoner, de “Ela dança, eu danço”; Demi Lovato, do time de estrelas da Disney; Lindsay Lohan, de “Operação Cupido”; Miley Cyrus, a Hannah Montana; Cole Sprouse, de “Zack & Cody: Gêmeos em Ação”: e mais um tanto de outros famosos como Drew Barrymore, Macaulay Culkin e Michael Jackson. No passado já ocorreu o mesmo com Judy Garland, Shirley Temple e Elizabeth Taylor. Entre os tupiniquins temos Larissa Manoela, que até os 22 anos teve suas finanças controladas pelos pais. São inúmeros casos semelhantes a esses citados. Apesar de fama e dinheiro alcançados por muitos, muitas vidas foram destruídas e condenadas ao sofrimento.
Na China, uma tradição cultural e artística milenar conhecida como Taimaobi (pincel de cabelos fetais, ou seja, feito com o primeiro cabelo raspado do bebê). É uma prática de mais de mil anos, originada na Dinastia Tang, simbolizando o desejo dos pais de sucesso, sabedoria e boa sorte ao filho ou filha. O cabelo é transformado em pincéis de caligrafia, colocados em caixas especiais ou emoldurados. A tradição de tornar os cabelos das crianças em joias revela uma preocupação dos pais de que o sujeito seja rico em sabedoria, sabendo que o sucesso vem com o amor da família e com o trabalho por ela; e que a sorte não é só a espera das coisas boas, mas também é ir em busca dela, fazendo as escolhas certas. O Taimaobi traz a recordação do nascimento e do renascimento todos os dias, levando a pensar nas boas coisas da vida, que não podem ser apagadas pelo sofrimento inerentes à condição humana.
“Já que um dia eu montei, agora sou cavaleiro, laço firme, braço forte, de um reino que não tem rei.” Eu não imolaria o corpo em que mamãe passou talco. A tosa garante saúde e bem estar (aparar excessos sempre fará bem). É legítimo apostar na carreira dos filhos, desejando-lhes sucesso, sabedoria e boa sorte, porque “com gente é diferente”.



COMENTÁRIOS
Vera
em 10/04/2026
Minha mãe cortou os meus cabelos para fazer uma peruca. Comprou uma bicicleta alemã usada da mesma mulher que vendeu a peruca.A dor e vergonha permaneceram por longos anos.A bicicleta fazia um barulho terrível nos paralelepípedos e os meus cabelos saiam nas cabeças dos moleques nos carnavais.