Rosivaldo Casant
TRANSPLANTE E TRANSFORMAÇÃO
O tempo passou e eu tanto engordei quanto fiquei calvo. Sugeriram-me apelar para o recurso das perucas; sinceramente, respeito quem opte por esse expediente, mas nunca foi muito a minha pegada
TransplanteTRANSPLANTE E TRANSFORMAÇÃO
Eu e minha esposa evitamos a exposição nas redes sociais. Aqui e ali ela publica algumas fotos dos momentos de alegria, como por exemplo, um pôr ou um nascer do sol, na Ilha Comprida ou na Praia Grande; de uma recordação da Nina (pet que perdemos com vinte anos de idade, há pouco mais de um ano); de uma das estripolias do Raja, o pet que nos adotou aqui na Ilha – nosso menino maluquinho); e, de vez em quando, eu componho a cena, como na semana passada, expondo-me de sunguinha com o referido pet. Não deu outra; um de nossos antigos alunos, o Dadá, comentou o post; “Tá gordinho, hein professor?!” O pior é que ele tem razão. Fazer o quê? Há mais de trinta e dois anos venho sendo bem cuidado pela dona da pensão. No entanto, a observação me fez lembrar de uma conversa com meu bom amigo e mentor espiritual Daniel Manoel, quando discutimos sobre a aparência das pessoas na vida adulta, principalmente a partir dos quarenta anos. “Barrigudo eu não vou ficar; agora, careca, não sei se poderei evitar", afirmei, entre o categórico e o titubeante.
O tempo passou e eu tanto engordei quanto fiquei calvo. Sugeriram-me apelar para o recurso das perucas; sinceramente, respeito quem opte por esse expediente, mas nunca foi muito a minha pegada. Sei de gente por aí que passou muita vergonha em razão de um bolo de cabelos saindo na ponta de um guarda-chuvas dentro de um ônibus lotado, produzindo episódio cômico de uma comédia pastelão. Admiro quem doa cabelos para instituições que produzem perucas destinadas aos que perderam seus cabelos por conta de alopecia, quimioterapia ou qualquer outro incidente que implique na perda dos cabelos. Eu gostaria de ser um desses despreendidos doadores. Não podemos nos esquecer do entrelaçamento e outras técnicas similares, que são mais alguns artifícios utilizados para substituição da cabeleira; mas, por mais que alguns digam o contrário, por melhor que tenham se tornado, continuo achando bastante artificial. Um dia desses, numa tapeçaria de autos de um amigo, troquei umas ideias com um cliente que aguardava atendimento e logo reparei que ele havia feito um entrelaçamento. Entre tantos assuntos fluindo na conversa solta, enveredamos pelo da calvície (creio que eu o inspirei); então ele me disse em tom quase solene: “Veja isso, parece que eu tenho um entrelaçamento?” Por pouco não disse: SIM. Mas o meu filtro funcionou. Ele me contou em que lugar fez; falou um pouco dos procedimentos regulares para a manutenção adequada daquele investimento. Dispôs-se a me encaminhar o endereço da clínica em que tinha feito. Era um trabalho bem feito, mas olhando bem, a artificialidade deixa de ser percebida por bem poucos.
A cerca de uns vinte anos passei pela experiência de transplante capilar, cuja técnica é denominada FUT (Follicular Unit Transplantation), em que é removida uma faixa de couro cabeludo da área doadora (geralmente da parte de trás da cabeça) e as unidades foliculares são implantadas na região carente de “vegetação” (rsrsrs …). No lugar de onde os cabelos são retirados fica uma cicatriz, que é encoberta pelos cabelos crescidos. No geral, o resultado foi pífio e decepcionante. É bom que eu diga que jamais senti algum complexo pela falta de cabelo; a baixa estima não compõe o meu vocabulário. Minha mulher costuma dizer que sofro de excesso de confiança. Mas careca é referência: “Onde ela está? Ali, meu, do lado daquele careca.” O sujeito estudou comigo na juventude e ao me encontrar num posto de gasolina em São Bernardo, de longe gritou: “Aê, careca!” e havia tantas coisas boas para lembrar. Há uns cinco meses passei por um novo procedimento, cujo nome é FUE (Follicular Unit Foliculares). A técnica consiste na extração dos folículos um a um e implante igualmente um a um, sem cortes. Desta vez, o resultado foi muito satisfatório. Eu estranho as pessoas que me conhecem a tanto tempo me olharem diferente, mas logo me toco que passei por um novo procedimento capilar. Quando declaro que fiz transplante de cabelos, logo descubro que mais um monte de pessoas está embarcando nessa onda também. Um político da Ilha Comprida me disse que seu topete era resultado de uma cirurgia semelhante à minha feita já há algum tempo. Reparei um amigo com um aspecto diferente numa foto no Facebook e logo disse a minha esposa: “O Fulano também fez o procedimento.” Ela olhou e concordou. Alguns dias depois, a irmã do rapaz veio nos visitar e confirmou o fato.
Agora que os cabelos estão no lugar de onde nunca deveriam ter saído (kkkkkkk), preciso resolver a questão da barriga; obviamente que sem cirurgia, claro! Fique tranquilo, Dadá, não digo isso porque fiquei chateado ou ofendido; como professor sempre ensinei que devemos fazer parte da brincadeira; faz parte do aprender. Mas não quero servir de referência nem como careca, nem como gordinho.
Bem, estou compartilhando essa forma de olhar para mim mesmo, contando coisas que às vezes nos envergonhamos de tornar públicas, para servir de alento aos que temem o julgamento das outras pessoas, receando a reprovação. Não precisamos ser perdidamente apaixonados pela nossa própria imagem, como Narciso na mitologia grega e nos perdermos na própria beleza, mas a Bíblia ensina que fomos feito à imagem e semelhança de Deus; se formos ao menos espelhos que refletem a glória de Deus, como nos ensina o apóstolo Paulo na sua segunda epístola aos Coríntios, que beleza não será?! De nada terá valido qualquer procedimento estético sem a alma transformada!



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