Antonio de Paula Oliveira
Congonhas sob os olhares dos profetas de Aleijadinho.
Congonhas e as obras de Aleijadinho
Os profetas no adro da Basílica. Jesus carregando a cruz em uma das capelinhas. Uma capelinha com obras de Aleijadinho e ao alto a Basílica Senhor do Bom Jesus do Matozinhos. aCongonhas sob os olhares dos profetas de Aleijadinho.
Jornalista: Antonio de Paula
Entre passos, romaria e olhares encantados, Congonhas reafirma seu papel como um dos maiores palco de arte sacra barroca do Brasil. As obras de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, e o conjunto barroco se integram à celebração do jubileu religioso, criado numa experiência onde a fé e cultura caminham lado a lado.
Para chegar à Congonhas, pegamos a rodovia BR- 040, por 80 quilômetros, saindo de Belo Horizonte e seguimos no sentido sul. É um trecho de intenso fluxo de caminhões carregados de minério de ferro. Entre as incontáveis curvas, mal dá para notar as montanhas azuis de Minas Gerais.
Eu havia combinado de encontrar com o historiador André, com Guilherme Fontainha, um grande conhecedor de toda história de Congonhas e também com Luciomar S. Jesus, estudioso sobre o Mestre do Barroco. O dia começou com um sol estalado de intenso calor e um ar tomado pela poeira de minério. Depois de 1 hora, atravessamos o portal de entrada da cidade, na parte baixa de onde se avista as palmeiras imperiais lá no alto, próximas ao Santuário do Senhor do Bom Jesus de Matosinho.
A origem da cidade se deu em 1757 quando o minerador português, Feliciano Mendes, atraído pela abundância de ouro na região, fundou o Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, que logo passou a atrair muitos fiéis surgindo o jubileu religioso. A devoção se iniciou com um pequeno oratório e foi crescendo com a chegada de aventureiros do ciclo do ouro. O jubileu foi oficializado pelo Papa Pio VI em 1779, tornando uma das mais tradicionais manifestações religiosas do Brasil.
Visitar Congonhas, em Minas gerais, um Património Cultural da Humanidade reconhecido pela Unesco, vai muito além de fazer turismo histórico ou religioso. É uma experiência que abre os olhos e instiga a imaginação sobre como imensas pedras-sabão que foram transportadas até o alto da colina onde se ergue o magnífico conjunto arquitetônico. Em uma época em que os transportes eram rudimentares, feitos por cavalos, bois e pela força humana, admirar a grandiosa obra de Aleijadinho é também reconhecer a fé, a engenhosidade e o esforço quase sobre-humano que a tornaram possível.
Subir as ladeiras calçadas por pedras seculares, rumo ao Santuário, lá no alto, requer esforço e tempo para apreciar toda obra que está espalhada por todos os lugares: muros feitos de pedra sobre pedra e ruas estreitas com calçamento de pedra sabão. Grandes Janelas de madeiras rentes as ruas, telhados cobertos com telhas de barro repousam sobre paredes de adobe, onde moradores apreciam o tempo passar sem nenhuma pressa.
A subida é íngreme, mas cada passo permite uma observação compensadora. No topo, ergue o Santuário do Senhor do Bom Jesus de Matosinho. Na frente, uma gigantesca porta de madeira se abre para a entrada dos visitantes. Dentro da igreja, por onde se olha, encontra-se um relicário entalhado em madeira, coberto por ouro, imagens de santos e anjos, todas em madeira. Em seguida, nos deparamos com a obra monumental de Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, esculpida em pedra-sabão. Para o historiador André Candreva, professor e pesquisador da arte colonial brasileira, cada traço entalhado na rocha, revela não apenas a genialidade do artista, mas também a profunda fé e um tempo marcado por sofrimento. Bem à frente do Santuário está uma das maiores expressões do barroco brasileiro: o conjunto de escultura dos 12 profetas. Esculpidos em pedra-sabão, é uma grandiosa obra do mestre, talvez a mais admirada e vista por todo mundo. As estátuas são em tamanho natural e estão no adro adornado por grandes pedras entalhadas uniformemente. Os profetas impressionam pela expressão, parecem dialogar com o tempo e com quem os observa. Há uma densidade espiritual de um período marcado pela religiosidade intensa e pelo período da escravidão. Cada profeta possui individualidade marcante.
Quem nos conduz por esse universo é o pesquisador Luciomar, uma das maiores autoridades sobre a trajetória de Aleijadinho e seu barroco singular. Ele nos conta que as expressões faciais e gestos revelam sentimentos intensos, como a angústia, esperança temor e fé, além de semblantes que sugerem movimento e introspecção. A genialidade de Aleijadinho em capturar a essência da fé e da condição humana através das vestimentas e adereços dos profetas, tiveram como inspiração a sua própria condição física e social que assustavam os olhares de seus contemporâneos.
Guilherme Fontainha, especialista em religiosidade do jubileu, destaca que o Jubileu de Congonhas tem origem em uma promessa feita por Feliciano Mendes, fundador de Congonhas e do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos. Movido por uma profunda fé após se curar de uma grave enfermidade. Nascia ali uma das mais importantes tradições religiosas do Brasil, cuja peregrinação atravessa séculos.
A via Sacra nas capelas dos passos da Paixão de Cristo, em Congonhas, esculpidas por Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, talvez seja o maior acervo do conjunto de obra feito em madeira e pedra-sabão, distribuídos pelas 6 capelas ao longe da ladeira. As cenas nas capelas, representam os passos de Jesus Cristo carregando a cruz rumo ao calcário, sendo acoitado pelos soldados. Cada capela apresenta uma forte carga teatral onde a estaticidade da obra salta aos olhares das pessoas. As expressões das imagens transmitem um profundo sentido de dor, fé e admiração da grandeza de toda obra barroca. As imagens de Cristo, apresentam expressões corporais e faciais intensas, que revelam dor e angustia, humilhação e compaixão. As esculturas não apenas ilustram um evento bíblico, mas buscam tocar o coração dos visitantes. A obra prima de Aleijadinho, através do barroco mineiro, leva a alma ao estremecimento.
As imagens esculpidas na madeira, todas em cedro, são perfeitamente entalhadas com uma perfeição intensamente humana. Os olhos vidrados dos soldados, com severidade e espanto, são características únicas de toda a sensibilidade estética de aleijadinho. As seis capelas da Via Sacra revelam algo transcendental: o rompimento das emoções humanas diante da arte de Aleijadinho, que vai muito além de simplesmente comover, ela inquieta a alma das pessoas. Aleijadinho foi um artista muito à frente do seu tempo, ele transformou episódios bíblicos em mensagens esculpidas com precisão e expressividade na pedra-sabão e na madeira. Luciomar S. Jesus, escultor, pesquisador e profundo conhecedor de toda trajetória de Aleijadinho, ressalta que a obra do mestre ultrapassa o valor estético. Para ele, cada escultura carrega marcas da luta pessoal do artista e do contexto social de sua época. . .
O artista Sacro não frequentou escola de artes. Seu aprendizado ocorreu na oficina de seu pai, que era arquiteto e carpinteiro. Lá ele desenvolveu suas habilidades em esculturas e arquitetura de forma autodidata. Aleijadinho teve seu primeiro contato com o barroco através das obras presentes em igrejas e edifícios de Minas Gerais, como a igreja de São Francisco de Assis em Ouro Preto, que serviu de inspiração para o seu trabalho. Luciomar nos relata que Aleijadinho teve grande influência do escultor português Francisco Xavier de Brito.
Em sua última fase, o mestre trabalhou o estilo Rococó. A imagem Nossa Senhora Santana demonstra a fase do artista. Altares, santos e pinturas marcaram esse período. Conforme relato de Luciomar, o Aleijadinho deixou a sua arte em várias cidades mineiras, além de Congonhas, Ouro preto, Mariana, São João del Rei, Tiradentes e Sabará. Com o tempo, foi se deformando fisicamente e perdendo os movimentos, foi acometido pela cegueira. A causa mais provável da sua morte tenha sido hanseníase ou porfiria cutânea tardia, aos 76 anos de idade. Aleijadinho foi o maior expoente do barroco mineiro, ao fundir arquitetura, beleza e espiritualidade em obras que resistem ao tempo.
Ao final do dia, do alto da Basílica, juntos às imponentes esculturas dos profetas, é possível ver o sol se pondo suavemente nos contornos da Serra de Ouro Branco. Ao deixar Congonhas, fica a sensação de privilégio por ter conhecido de perto a genialidade de Aleijadinho, um patrimônio que reúne beleza artística, valor histórico e profunda expressão religiosa.



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