Vaza novo dossiê sobre gabinete paralelo de Moraes e as prisões do 8 de janeiro
Durante os eventos que se seguiram ao 8 de janeiro de 2023, um gabinete paralelo de inteligência foi operado diretamente do TSE, sob comando do próprio Moraes.
Mais um capítulo da distopia brasileira que insiste em se chamar “democracia” veio à tona nesta segunda-feira (4). Mensagens vazadas por ex-assessores do ministro Alexandre de Moraes indicam que, durante os eventos que se seguiram ao 8 de janeiro de 2023, um gabinete paralelo de inteligência foi operado diretamente do TSE, sob comando do próprio Moraes, com o singelo objetivo de caçar manifestantes — inclusive os que nem sabiam que estavam sendo caçados.
De acordo com o material divulgado pela organização Civilization Works, do jornalista Michael Shellenberger, e apurado pelos jornalistas David Ágape e Eli Vieira, a estrutura montada dentro da Justiça Eleitoral mais parecia um call center de vingança institucionalizada, com “analistas” varrendo redes sociais atrás de qualquer postagem “antidemocrática” — o que, sabemos bem, inclui até dizer que Lula deveria estar preso ou que o STF não é exatamente um modelo de equilíbrio entre os Poderes.
Quando a certidão vale mais que o Código Penal
As mensagens revelam a criação de “certidões positivas” — uma espécie de rótulo digital para classificar o manifestante como criminoso, sem processo, sem defesa, sem contraditório. Bastava estar num grupo de Telegram, curtir um vídeo do Monark ou compartilhar um meme com a frase “Supremo é o povo”. Pronto: cadeia. E nem adianta chorar para o advogado, porque essas “certidões” nunca foram incluídas nos autos nem disponibilizadas para defesa. Transparência é só no slogan institucional.
Segundo os prints, o grupo de inteligência funcionava via WhatsApp (porque, claro, se é para atropelar a Constituição, que seja de forma prática), com participação de juízes auxiliares, assessores, servidores e até militantes, num esquema que misturava Judiciário, Executivo, militância e agências de “checagem” como se fosse tudo a mesma coisa.
A operação foi coordenada, segundo o vazamento, por Cristina Yukiko Kusahara, chefe de gabinete de Moraes, com relatórios elaborados sob ordens repassadas diretamente pelo WhatsApp pessoal do ministro. O objetivo? Aparentemente, transformar qualquer indício digital em justificativa para manter mais de 1.400 brasileiros presos sem julgamento. Afinal, “compartilhou, logo participou”.
Da cadeia de custódia à corrente de zap
Segundo os áudios revelados, listas com nomes, fotos e documentos dos detidos eram repassadas informalmente por agentes da Polícia Federal, sem cadeia de custódia, direto no grupo da “equipe de inteligência” — o que no mundo real se chama violação processual grave, mas no Brasil de 2025 é apenas “defesa da democracia”.
Em um áudio, um agente federal pede sigilo ao compartilhar dados sensíveis de presos, afirmando que “estavam sendo muito procurados”. Claro, não se sabe por quem, mas a essa altura, se alguém ainda estiver surpreso com a mistura de tribunal, partido, polícia e algoritmo, precisa de reforço de história e constitucional.
Redes sociais viraram campo minado
Bastava uma curtida, um post, uma figurinha no Zap, um compartilhamento do perfil errado ou um desabafo de que “o Brasil está virando Cuba” para receber a famigerada “certidão positiva”. Segundo os relatos, isso era suficiente para justificar a detenção, mesmo sem histórico criminal, sem presença no vandalismo de 8 de janeiro e, em alguns casos, sem sequer sair de casa no dia.
Um dos casos emblemáticos trazidos é o de um caminhoneiro preso apenas por postagens críticas a Lula nas eleições de 2022. Ele não entrou em nenhum prédio público, não quebrou nada, mas passou 11 meses e 7 dias preso por crime de “tentativa de abolição violenta do Estado democrático de direito”. O único ato de violência, no caso, foi o cometida contra a liberdade e o bom senso.
STF, silêncio absoluto; imprensa tradicional, idem
Como de praxe, o Supremo Tribunal Federal e o TSE foram questionados, mas seguem em silêncio sepulcral. É difícil responder quando o que se revela é uma estrutura de espionagem doméstica operando com a naturalidade de quem sabe que não será punido. Nenhum ministro se manifestou. Nenhum veículo tradicional cobriu com o destaque merecido. Se fosse em 2016, chamaríamos de “aparelhamento”. Em 2025, virou política pública.
O Brasil virou meme judicial — só que sem graça
O vazamento reforça a suspeita de que o Brasil atravessa um processo acelerado de judicialização autoritária do dissenso. O Judiciário, que deveria ser o guardião da liberdade, passou a ser o capataz da narrativa. Enquanto isso, cidadãos são presos por postagens, memes, retuítes e piadas. Bem-vindo ao Brasil do “certificamos que você é culpado”.
Se isso não é o fim do Estado Democrático de Direito, falta pouco. Ou, como diria o próprio Moraes em caixa alta:
“A JUSTIÇA É CEGA, MAS NÃO É TOLA” — exceto quando decide ignorar princípios básicos do processo legal, a separação dos poderes e o artigo 5º da Constituição.



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