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São Paulo,03/04/2026

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Carlos José León

A esquerda latinoamericana se afasta do ditador Maduro?

Lula, Petro e Mujica confrontam ao regime venezuelano.

Criação do autor.
A esquerda latinoamericana se afasta do ditador Maduro? Maduro sendo observado por Mujica, Lula e Petro

Na última semana alguns líderes da esquerda Latinoamericana expressaram suas opiniões diante às violações aos direitos políticos e à ausência de democracia na Venezuela. Mas, porquê agora?. Estamos falando de Gustavo Petro, presidente da Colômbia, Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai e o Lula da Silva, atual presidente do Brasil. Nas seguintes palavras pretendo responder a alguns questionamentos, como Que intenção teriam estes líderes em se posicionar em contra do Ditador Nicolás Maduro depois de tantos anos que saíram em sua defesa? María Corina é um ator político relevante na Venezuela pelo menos desde 2010, sempre foi acusada de ser da “direita golpista” e sabotadora, discurso que o Lula por exemplo chegou a reproduzir muito, atualmente é a líder indiscutível da oposição e as falas destes líderes dão conta do que ela vem denunciando há muitos anos e o que nós venezuelanos alertando nos países onde residimos: que na Venezuela não há democracia. 


Neste pequeno texto pretendo dialogar com algumas reflexões que como venezuelano gostaria de compartilhar com o público brasileiro. Pretendo fazê-lo um a um para diferenciar suas motivações, com respeito e praticidade.


Petro deve  garantir sua continuidade, da melhor forma, se distanciar do ditador!

Gustavo Petro, ex - guerrilheiro que se tornou Presidente da Colômbia, viajou muitas vezes para Venezuela ao encontro com o ditador, em muitas ocasiões disse que a Venezuela precisava se centrar de novo na Corte Interamericana de Direitos Humanos (de onde o Chávez tinha tirado em 2012). Este argumento do Petro estava alinhado ao discurso de que Venezuela precisava voltar ao cenário internacional, mas também voltar aos organismos Internacionais, Petro nestas visitas, até o momento estiveram orientadas a reabertura das fronteiras terrestres e comerciais, visitas feitas em 2023. Desde então, o líder colombiano se manteve na linha da sua política interna, e como fazer seu projeto de permanência no poder, diante aos protestos recentes, também passa por uma baixa aceitação do público devido a sua intenção de querer propor uma mudança na Constituição.Por quê precisaria Petro uma democracia autêntica na Venezuela? Bom, vale lembrar que Colômbia é o país que mais venezuelanos acolheu, a cifra até dezembro de 2023, segundo a plataforma R4V,  é de quase 3 milhões de venezuelanos. (exatos: 2.875.743). Desta forma, uma melhora na situação crítica venezuelana significaria que um número importantes destes imigrantes voltariam pela facilidade e proximidade que há entre os dois países


Mas, voltando ao nosso ponto, Petro, estaria se afastando do Maduro ao criticar as inabilitações arbitrárias?

Durante a semana passada e na segunda feira 01/04 houve trocas em redes sociais entre o ditador Maduro e Gustavo Petro, o primeiro chamou a esquerda latinoamericana de cobarde porque esta não condenava as tentativas de magnicídios contra ele, isto porque na semana passada segundo o regime ele seria morto por dois supostos membros do partido Vente Venezuela, partido da María Corina Machado. Ele no vídeo disse: “Não só me perseguem para tentar atentar contra a minha vida, como ficou demonstrado ontem com a captura de dois indivíduos do movimento terrorista chamado Vente Venezuela, serão vinte terroristas. Eles estão em silêncio (…) os governos de direita estão em silêncio. A esquerda covarde não é capaz de condenar os golpes, as tentativas contra a revolução, contra a paz”  e Petro respondeu assim no twitter em referência ao vídeo: “Não existe esquerda cobarde, existe a probabilidade de, através do aprofundamento da democracia, mudar o mundo”. E ontem (02/04) Petro voltou a ser notícia quando disse numa declaração que a inabilitação de María Corina e outras, na Venezuela são “um golpe antidemocrático”.


Pepe Mujica, o sempre crítico e moderado, cortaria de vez com Maduro?

O líder uruguaio disse também em duas ocasiões recentes, que Venezuela não respeita a Democracia e logo, numa entrevista, agregou que: “Parece que estão brincando à democracia, só que não”. Muitos que já acompanhamos os líderes da onda rosa sabemos que Pepe Mujica sempre se mostrou ser o mais moderado, seu governo não perseguiu a perpetuidade no poder, porém, quando podia, mostrava apoio aos regimes como o de Maduro e Fidel. Até que nos últimos tempos suas críticas foram mais ou menos disfarçadas, ou seja, em muitas ocasiões criticou que os líderes uma vez no poder se trancavam nos palácios e acabavam se afastando do povo.

Nesse sentido, eu me questiono, por quê o mais moderado de todos foi dos últimos em reagir a ditadura venezuelana? o que lhe moveria? deixarei essas perguntas para respondê-las no final.


Lula para se tornar o maior líder da região, estará pensando em enterrar o ditador Maduro?

Lula, o mais mediático deste trio, está decidido em tomar o papel de Fidel e o Chávez, de ser um líder intercontinental e liderar a maré da esquerda que pretende cobrir os litorais latinoamericanos com seu discurso cheio de narrativas, entre as que destacam, “ter sofrido uma perseguição política em 2018” e “tentativa de golpe de 8/Jan”. Para seguir nossa linha de raciocínio devo mostrar aqui parta das falas do Presidente do Legislativo venezuelano, Jorge Rodrigues, de maioria chavista, quem ao ver as declarações de Petro, Mujica e Lula, disse no seu twitter: “Podem enfiar suas opiniões onde elas couberem” claramente em discrepâncias. Quem é esse cara? Por quê ele teria esse nível de pronunciamento? Pois bem, ele é o mesmo que chefiou as negociações em representação da ditadura, as experiências de Dominicana, Noruega, México e a última: Barbados. Sim, nessa última foi onde o Lula afirmou estar orgulhoso de que o Brasil  tinha participado como testemunha. Bom, foi esse mesmo negociador-chefe do chavismo, quem questionou aos referidos líderes esquerdistas, dando a entender que carecem de conhecimento, ignorância ou medo pois não falam nada do “plano insurrecional e de assassinato” da oposição venezuelana contra o ditador Maduro.


Lula, tem o compromisso com sua base de apoiar os movimentos da região inteira, porém, não estamos mais em 2014, quando a oposição ao Maduro era ampla e podia dizer que era a suposta “direita” quem não deixava Maduro governar. Não estamos em 2016 e 2017, quando o Supremo Judiciário deu golpe no Legislativo venezuelano obedecendo ao Maduro, e a justificativa foi que o Legislativo estava sabotando ao país, não estamos mais em 2019, com o surgimento do Guaidó e o afloramento das sanções do Trump, para dizer que a Venezuela está assim por causa desses dois últimos. Não, nós estamos em 2024, onde sabemos que houveram eleições primárias da oposição em outubro de 2023, e foi Maria Corina Machado, com mais de 90% dos votos, mesmo ano em que ocorreu a negociação em Barbados, o acordo que surgiu daí foi elogiado pelo Lula depois de ter enviado ao Celso Amorim para reunião com os EUA e outros países. O acordo dizia entre seus vários pontos que as eleições venezuelanas ocorreriam garantindo a participação de todos os atores, ou seja, que se devia garantir o livre direito a participar.

 Ele escreveu assim:

“Saúdo a assinatura dos Acordos para Promoção dos Direitos Políticos e Garantias Eleitorais e para Garantia dos Interesses Vitais da Nação entre o governo da Venezuela e a oposição no país. A importante assinatura aconteceu hoje, em Barbados, com participação brasileira e de outros representantes de países como Estados Unidos, México, Países Baixos, Rússia e Colômbia, com a mediação da Noruega” 


E o quê aconteceu? Feitas as eleições o Supremo Judiciário quiz impugnou os resultados eleitorais onde tinha sido eleita a Maria Corina Machado, argumentando fraude, um processo que tinha sido com votos manuais e contados pelas próprias organizações políticas participantes.

Desse acordo os Estados Unidos tinham se comprometido a diminuir as sanções no setor energético, mas Maduro devia cumprir sua parte. Não o fez. Mas o quê sim foi feito? O Supremo Judiciário venezuelano desta vez inabilitou por 15 anos a Maria Corina.


Lula, numa tentativa de ratificar seu apoio a Maduro, continuou na linha discursiva da narrativa, dessa vez, chamou a Maria Corina de chorona, por ela não indicar um nome para se inscrever. Novamente escorregou, porque Maria Corina indicou a Corina Yoris, resultado: Ditadura travou a inscrição no registro eleitoral no prazo que era até 25 de Março.


O Presidente brasileiro não tem então mais o quê fazer para defender a Maduro, as opções foram dadas, por diversos atores presentes, e o ditador fez o que sabe fazer, desconhecer os acordos. E o Lula, com sua popularidade em estado crítico, precisa resgatá-la, a melhor chance é esta, criticar ao seu amigo venezuelano. Sua chance de se mostrar como quem joga uma pedra e esconde a mão. Como quem nunca sabia com quem estava negociando. 


Chegamos ao ponto onde devo responder, Por quê a esquerda latinoamericana age desta forma. 

Não tenho mínima vontade de defendê-los, nem atacá-los, apenas trazer meu ponto de vista. Pra mim tem tres linhas de pensamento estratégico.

1- A esquerda está se reagrupando, e precisa limpar o caminho, caras novas, e isto pode girar ao redor do Lula como máximo líder desta jogada, o perfil dele estaria sendo direcionado para assumir o trono deixado pelo Hugo Chávez, que foi ocupado também por Fidel Castro. Ou seja, eles não estão brigando, estão se ajeitando para a próxima fase. A Venezuela deve muito dinheiro a muitos países, seja Maduro ou alguém da oposição precisa pagar essa grana, desta forma tanto faz para o Lula, pois ele além de representar sua base esquerda, também representa a base da elite econômica brasileira interessada em negócios com a Venezuela.

2- Também considero que, nessa reconversão que tem a esquerda latinoamericana, a figura do Maduro não é mais necessária para o jogo político, eles têm bases já sólidas em países como Argentina que apesar de estar o Milei no poder a camaradagem socialista é grande graças ao trabalho cultural de muitos anos que os Kirchners controlaram o poder, Colômbia e o Chile, nestes últimos dois onde governa a esquerda, ambos com fortes interesses em mudar a constituição, portanto, seria mais interessante para a esquerda latinoamericana defender Argentina e achar o jeito de colonizar as mentes dos colombianos e chilenos. E deixar a Venezuela com seu peixe morto. Assim, amigos, veriamos como a esquerda que tanto defendeu ao Maduro, se lavar as mãos, inclusive acusá-lo de não democrático abertamente, se distanciar dele em “nome da luta dos povos”.


3- Que isto não seja mais do que um teatro discursivo da esquerda latinoamericana, préviamente combinado onde eles farão o que for necessário para disfarçar e mentir, e sa fazer de democratas surpreendidos ou indignados pelo que o Ditador faz, mas é bom que nós cidadãos comprometidos com a democracia estejamos alertas e com boa memória.


Sobre o autor: Carlos José León, é venezuelano, formado em Estudos Políticos e Governo, realizou MBA em Gestão de Projetos, concluiu uma Especialização em Política Social, e atualmente cursa Mestrado em Planejamento e Gerenciamento de Políticas e Programas Sociais. Atua como professor de espanhol, e criador de conteúdo nas redes sociais, onde explica assuntos relacionados à crise venezuelana. Podem acompanhar esse trabalho nas redes sociais como: @carlosjoseleon_



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