Seja bem-vindo
São Paulo,15/02/2026

  • A +
  • A -

A ascensão de Luana Lopes Lara e a reação do Brasil que teme o mérito

O Brasil precisa decidir se quer punir ou promover o mérito.


A ascensão de Luana Lopes Lara e a reação do Brasil que teme o mérito

No dia 4 de novembro, a revista Forbes anunciou um feito raro e emblemático: a brasileira Luana Lopes Lara, 29 anos, natural de Santa Catarina e oriunda de família de classe média, tornou-se a mais jovem bilionária self-made do mundo. Cofundadora da Kalshi, plataforma regulada de mercados de previsão nos Estados Unidos, Luana acumulou uma fortuna estimada em US$ 1,3 bilhão, mais de R$ 7 bilhões.

Sua trajetória segue a cartilha clássica do empreendedorismo de alto impacto: identificação de uma oportunidade, enfrentamento de riscos consideráveis, dedicação extrema e execução bem-sucedida. Antes de chegar ao topo, trabalhava 80 horas por semana e precisou defender a legitimidade de um modelo de negócios inovador em meio a um ambiente regulatório complexo.

Mas, em vez de reconhecimento amplo, o anúncio da Forbes desencadeou uma tempestade de críticas. As redes sociais foram inundadas por acusações de que a Kalshi seria uma “casa de apostas disfarçada”; outras vozes classificaram a jovem empreendedora como “arrogante”, “privilegiada” ou “alheia às desigualdades brasileiras”. O debate rapidamente abandonou qualquer análise objetiva e se transformou em um tribunal informal, movido por ressentimento e leituras distorcidas sobre mérito.

Uma entrevista exibida pela GloboNews ilustrou esse ambiente. A repórter questionou se Luana teria alcançado o sucesso “caso viesse de outro contexto”, insinuando que sua origem catarinense de classe média seria uma espécie de privilégio determinante. A narrativa implícita é conhecida: o mérito individual só existe até o momento em que alguém realmente prospera; depois disso, passa a ser tratado como suspeito.

A reação diz menos sobre Luana e mais sobre o país que observa sua ascensão. O Brasil tem dificuldade histórica em lidar com casos de sucesso, especialmente quando envolvem iniciativa privada, risco individual e inovação. O êxito de um é frequentemente percebido como ofensa coletiva ou evidência de injustiça estrutural. Em vez de servir como inspiração, histórias como a de Luana tornam-se gatilhos para discursos que reduzem conquistas pessoais a meros “privilégios ocultos”.

Um estudo da FGV divulgado em 2023 revela esse traço cultural: 62% dos brasileiros admitem sentir mais inveja do que admiração pelo rico e empreendedor. Nos Estados Unidos, onde Luana construiu sua fortuna, esse índice cai para 28%. Não é coincidência. O ambiente americano recompensa risco, criatividade e inovação. O brasileiro pune, desincentiva e burocratiza.

A hostilidade ao mérito tem raízes profundas, entre elas a chamada “mentalidade de escassez”, conceito trabalhado pelo economista Daniel Kahneman. Sociedades que se percebem como estruturalmente pobres tendem a encarar o sucesso alheio como uma forma de perda coletiva; trata-se de um jogo de soma zero, em que a vitória de um supostamente subtrai oportunidades de todos os demais. O resultado é previsível: desconfiança institucionalizada, aversão ao empreendedorismo e fuga de talentos.

Esse fenômeno também alimenta discursos políticos populistas. Narrativas que demonizam empresários ou bilionários funcionam como atalho retórico para defender mais intervenção estatal e novas formas de redistribuição compulsória — ainda que tais políticas historicamente reduzam investimentos, inibam a inovação e restrinjam a mobilidade social que dizem combater.

O sucesso de Luana expõe essas contradições. O Brasil que a critica prefere nivelar por baixo a incentivar o crescimento. Mesmo em setores inovadores, o ambiente local impõe burocracia, insegurança jurídica e carga tributária predatória. Startups passam mais tempo lidando com reguladores do que com investidores. Não surpreende que tantos brasileiros talentosos encontrem nos Estados Unidos, ou em ecossistemas como os de Singapura e Coreia do Sul, condições para prosperar.

Lá fora, bilionários self-made são tratados como exemplos de resiliência e motor de desenvolvimento. Aqui, são vistos como vilões de uma história que sequer leram.

O caso de Luana poderia servir como símbolo de ambição, coragem e perspectiva global para milhares de jovens brasileiros. Em vez disso, tornou-se alvo de uma crítica que não examina fatos, mas sentimentos, raiva, inveja, ressentimento e a velha aversão nacional ao sucesso individual.

O Brasil precisa decidir se quer punir ou promover o mérito. Precisa escolher entre continuar alimentando uma cultura que demoniza quem enriquece ou construir um ambiente em que histórias como a de Luana deixem de ser exceções e passem a ser possibilidades reais.

Luana Lopes Lara não é um problema. Ela é um sintoma — e também um alerta. Sua trajetória mostra não apenas o que indivíduos brasileiros são capazes de realizar quando encontram liberdade econômica, mas também o quanto o país perde ao transformar empreendedores em alvos, e não em referências.














O sucesso dela expõe um incômodo profundo: ele revela o Brasil que poderíamos ser, mas ainda insistimos em não ser.




COMENTÁRIOS

Buscar

Alterar Local

Anuncie Aqui

Escolha abaixo onde deseja anunciar.

Efetue o Login

Recuperar Senha

Baixe o Nosso Aplicativo!

Tenha todas as novidades na palma da sua mão.