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São Paulo,15/02/2026

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Carlos Valentim

Crônica: A janela vazia

“Entre a saudade e o silêncio, uma senhora de 90 anos relembra, através da memória, a vida que escorria lentamente pela janela do interior."

imagem arquivo
Crônica: A janela vazia Idosa observa a janela


Era umajanela de madeira azul, com dobradiças que rangiam como se estivessem contandosegredos ao vento. Dali, dona Lourdes, hoje com 90 anos, assistia ao mundo. Masnão ao mundo como o de hoje — apressado, barulhento, digital —, e sim ao mundosimples das galinhas no terreiro, das procissões no fim de tarde e dos vizinhosque batiam à porta sem aviso, com café fresco e conversa boa.

Aquelajanela do interior de Minas não tinha vidro temperado nem vista panorâmica, masera sua tela para a vida. Por ela, viu seu primeiro amor passar com um chapéude palha, viu sua mãe costurar a luz do sol e viu os dias irem embora emsilêncio, sem a urgência que a cidade grande impôs mais tarde.

DonaLourdes chegou à capital nos anos 50, carregando uma mala de papelão, coragemnos olhos e saudade presa no peito. Trocou o barulho das cigarras pelo som dosbondes e mais tarde pelo ronco ininterrupto dos carros. Na metrópole, asjanelas ficaram mais altas, fechadas por grades ou cortinas. Nunca mais sesentou em frente a uma janela para ver o tempo passar. Era tudo rápido demais.Era tudo longe demais.

Hoje,mora num apartamento silencioso, no décimo andar. A janela de alumínio mostraprédios, nuvens e, às vezes, um pôr do sol entre as frestas do concreto. Mas estásempre fechada — "por causa da poeira", dizem os filhos. E elaobedece. Olha a vida pela televisão. Relembra pela memória.

A taljanela vazia, que ninguém mais abre, parece guardar não só a vista da cidade,mas também a infância esquecida, os rostos que já se foram, os tempos em queviver era estar presente — não registrado em vídeo, não compartilhado em rede,apenas vivido.

DonaLourdes às vezes sonha com a outra janela. Aquela da madeira azul, do interior.Não sabe se ela ainda existe, se alguém se senta ali, se o mundo ainda passapor ela devagar. Mas carrega a certeza de que, mesmo vazia, toda janela temuma história — e toda história merece ser lembrada.

Por:Carlos R.Valentim



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