Rosivaldo Casant
JUNTOS E MISTURADOS
Das coisas que me dão orgulho na carreira magisterial, duas eu declaro neste momento: a primeira é a de que trabalhei na mesma escola, junto com a minha colega e esposa, vinte e três anos consecutivos
FormaturaJUNTOS E MISTURADOS
Das coisas que me dão orgulho na carreira magisterial, duas eu declaro neste momento: a primeira é a de que trabalhei na mesma escola, junto com a minha colega e esposa, vinte e três anos consecutivos, ainda que em alguns anos eu tivesse aulas também em outra escola. Desde o primeiro instante em que voltei a lecionar, depois de um intervalo de três anos, minha vida profissional se organizou, pois ela me orientava na melhor forma de compor minha grade de horário, considerando seus mais de sete anos de experiência como secretária de escola, antes de começar a dar aulas. Sempre falei com orgulho das “vinte e quatro horas no ar”, fazendo referência a estarmos juntos em casa, no trabalho, nas compras, na criação de um filho, no cuidado com a família, na saúde, na doença, na pobreza de baixos salários e na riqueza de incontáveis bênçãos de Deus. A segunda coisa para me orgulhar, são os frutos colhidos ao longo da carreira, principalmente, no que se refere às conquistas de nossos alunos.
As redes sociais, como sabemos, nos aproximam e nos afastam das pessoas, mormente em tempo de extremos como temos vivido, tanto no nosso país como no mundo de uma maneira geral. É lamentável que nos distanciemos de pessoas que gostaríamos de conservar por toda a vida; mas a vida segue assim mesmo, tirando e pondo outras almas para compartilhamento do que é essencial. E, essencial mesmo, creio que seja o amor. Este texto estará sendo publicado um dia depois do Natal. A data sugere corações amolecidos, como bifes que sofreram a carga do martelo de bater carnes para o seu amaciamento, que, posteriormente, recebe os temperos, tornando a experiência palatável ( hum! eu estou com a boca aguando ao escrever isso). Nos preparamos para dar e receber presentes. Contudo, na manjedoura, continua aquela luz embaçada sobre um casal com seu bebê recém-nascido e três presentes, trazidos pelos reis magos, guiados pela Estrela de Belém, simbolizando sua realeza, divindade e humanidade. Não há árvore, cheia de pisca-piscas, nem chaminé, nem tender, nem peru recheado com farofa, nem espumante para um “viva”. Como diria Chicó, em o Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, “só sei que foi assim”: ali estava nosso presente, a salvação.
O Natal chega e o final do ano se aproxima, nos possibilitando fazer um balanço geral de perdas e ganhos. Ganhamos um aniversário e perdemos um ano de vida, pois o fato é inconteste: a morte virá e se aproxima mais todo novo dia, mas para quem se apropriou da mensagem da manjedoura, não há o que temer e não precisaremos fazer como o Leão da Montanha, dos desenhos animados, e dar saída pela direita ou pela esquerda. Daí eu entender que é inapropriada a expressão “mais um ano de vida”, pois, na verdade, o tanque se esvazia. Pode ser só uma questão de ponto de vista, como na metáfora clássica entre a visão otimista, que vê o copo meio cheio, focando no que tem, e a visão pessimista , que vê o copo meio vazio, centrando a atenção no que falta. Cabe a cada um escolher a melhor forma de encarar a vida. E pode ser junto e misturado: encarando os desafios e as oportunidades, com o copo se enchendo e ter gratidão pelo que se pode deixar de legado.
Como tudo continua junto e misturado, o nosso legado e o nosso presente a cada final de ano, é receber, principalmente pelas redes sociais, as informações sobre as conquistas dos ex-alunos. Mas, antes de relatar algumas atividades deles, permitam-me contar a primeira experiência de aluno indo trabalhar fora do país. O Botina (apelido que eu mesmo coloquei quando ele chegou na escola para a quinta série, antes da era do politicamente correto); depois do ensino médio, teve a oportunidade de ir trabalhar na Holanda, onde ficou por algum tempo; isso foi ali pelo final dos anos noventa. Suas irmãs, que também eram nossas alunas, nos abasteciam com informações sobre ele até retornar ao nosso país. Constituiu família e sua filha, alguns anos depois, tornou-se nossa aluna. Recentemente soubemos que também ela formou família; é que nos aposentamos há já algum tempo e nos mudamos para o litoral paulista há dez anos, do contrário, provavelmente seus filhos também seriam nossos alunos.
Há cerca de dois anos, recebemos uma mensagem pelo Whatsapp de um aluno (cujo irmão também estudou conosco). Contou que sentia muita saudade da gente, principalmente de toda a ajuda da professora, que permitiu que ele hoje fosse um policial civil. Outros estudantes seguiram o mesmo rumo. Cremos que se lembrarão que, além do conteúdo da disciplina, a ética ensinada e vivida por nós é fundamental para exercer sua função de forma idônea. Outra aluna se formou em medicina este ano (sua história é de perdas significativas, mas a vitória foi assegurada por sua persistência). Mais alunas se formaram na área da saúde: odontologia e enfermagem. Alguns são empresários no campo da estética, tendo seus institutos de beleza e academias de musculação, ginástica, natação e outras artes e esportes. Muitos são advogados (cheguei a estudar com um deles na faculdade de direito). Houve um momento que vários alunos se prepararam para ser comissários de bordo e hoje viajam até para o exterior. Há alunos que foram morar e trabalhar nos Estados Unidos e na Europa. Não nos esquecemos dos alunos que se tornaram professores, uns do ensino superior; outros foram, inclusive, nossos colegas na unidade em que estudaram.
Nem todas as atividades são glamourosas. Muitas são extremamente simples e, infelizmente desvalorizadas, mas todas são muito importantes, pois que necessárias são para a manutenção da vida em sociedade. Parabéns a todos que não se acovardaram, nem se vitimizaram! Foram a luta. Vendo, no futuro, o copo cheio. Mesmo geograficamente distantes uns dos outros, seguimos juntos e misturados.




COMENTÁRIOS
Vera
em 26/12/2025
Tive muitas surpresas ao longo da minha carreira, mas a última foi estarrecedora.Encontrei um aluno do curso noturno trabalhando em uma academia. Era personal . In(felizmente) não pude pagar os honorários dele. Passados quatro meses. Ele sempre dando algumas dicas nos aparelhos, com muita educação. Chamava professora, não de Vera. E dizia a todos os seus alunos que fui professora dele. Eis que nos meados de novembro,recebi a notícia que ele foi preso. Era agiota e torturador.Não se f