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São Paulo,14/02/2026

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Rosivaldo Casant

COMO A TV INFLUENCIA MEU DIA A DIA

Tive vontade de engrossar a voz e dizer: “Muito bem!” como fazia Chico Anysio, pois a algazarra era semelhante à da Escolinha do professor Raimundo

Tata Napolitano Casant (IA)
COMO A TV INFLUENCIA MEU DIA A DIA A TV influi

COMO A TV INFLUENCIA MEU DIA A DIA


Baseado em um texto elaborado para um concurso entre leitores da Folha de S. Paulo.


Entrei na sala  para dar a primeira aula da segunda-feira. Carregava o peso da ressaca do fim de semana; não que houvesse me embebedado, senão que dormira bem pouco, pois corrigira um zilhão de trabalhos e provas com caligrafias que mais me faziam pensar que eu lecionava árabe e não português. A beleza, talvez residisse nisso, que em outro idioma aquelas letras pudessem até se adequar ao quesito “escrita clara e bonita”. Os alunos nem notaram minha chegada. Arrumei minhas  coisas sobre a mesa e lhes dei as costas para apagar a lousa que, fora do combinado em todas as reuniões pedagógicas, estava com enorme um texto (não direi de qual matéria para não causar melindres em algum colega daquela época que esteja lendo-me agora e se lembre de que não costumava deixar o quadro negro (na maioria das vezes, verde) limpo para que o professor da próxima aula, naquele mesmo dia ou no outro, pudesse encontrá-lo em condições de iniciar rapidamente os trabalhos. Pensando bem, eu também já havia esquecido, algumas vezes, portanto, sigo minha história explorando outro ponto que não esse da rotina magisterial. Tive vontade de engrossar a voz e dizer: “Muito bem!” como fazia Chico Anysio, pois a algazarra era semelhante à da Escolinha do professor Raimundo. Apaguei a lousa de orelhas em pé, tentando pescar algum tema discutido pelos estudantes naquela manhã.

– Estou assistindo “Éramos seis”, depois de “Pátria minha” – não sei se era nessa ordem de horário que as telenovelas eram transmitidas, mas foi o que uma de minhas alunas informou à colega. Ao que a outra replicou:

– Minha prima leu o livro "Éramos seis” e disse que a novela é um pouco diferente, mas é muito legal também! – (Abro um parênteses para dizer que, via de regra, os textos originais superam em muito os roteiros produzidos para os filmes, muito embora se baseiam neles. Se tiverem dúvidas, experimentem assistir um Harry Potter e ler a mesma aventura depois).

Um outro garoto se pronunciou, falando que gostava da cachorrada da “TV Colosso”, impressionado com as peripécias realizadas pelos bonecos.. Um outro concordou que gostava também, mas o que realmente roubava sua atenção eram os comerciais, que prendiam sua atenção e o impulsionava a querer o produto da propaganda; imaginava que deveriam gastar uma nota para produzir tudo aquilo.

– Assisto ao “Castelo Rá-tim-bum”, com meus irmãos menores – sentenciou o outro. E a conversa sobre o que haviam assistido e o que pensavam sobre os programas, filmes e comerciais de televisão, foi deixando claro que o veículo era o que mais ocupava suas vidas e dos familiares também.

Eu lhes perguntei se se interessavam pelos programas de auditório e os conjuntos de pagode, de axé e de rock brasileiro. Disseram que seus irmãos maiores e os demais adultos da casa monopolizavam o aparelho de televisão da casa quando havia show de algum grupo musical e eles não podiam assistir o que queriam e, ainda, tinham que ir dormir mais cedo. Eles estavam impossíveis; não por bagunça, mas pelas geniais sacadas do que ocorre no dia a dia das famílias no que concerne ao uso da televisão.

Fiz a chamada. Conclui e vi que o assunto ainda era o dos programas da televisão. Deu vontade de agarrar as coisas e ir embora, pois parecia não haver clima para aula. A responsabilidade falou mais alto.  Sosseguei e fiquei. Tinha que falar sobre substantivo. Pensei: “O negócio é televisão. É show que eles querem? Vão ter.” Considerei os pontos positivos e negativos das novelas (inclusive o que seus pais achavam); falamos sobre a engenhosidade de alguns programas infantis; destacamos a criatividade da maioria dos comerciais, discorremos sobre o prazer de assistir a um bom filme; e fui destacando alguns substantivos na lousa. Houve um envolvimento surpreendente da maioria dos estudantes. Aí eu disse:

– Muito bem – procurando engrossar a voz como o professor Raimundo e, depois, na minha própria voz: – Senhores, o que é substantivo? – Alguma surpresa se eu disser que ninguém respondeu? – Tudo bem, vamos aprender então. Vou ensinar cantando. Todos conhecem a música da “barata”, do "Só Pra Contrariar”? – Uns mais saidinhos já foram murmurando musicalmente: “Toda vez que eu chego em casa …” – Tá bom! – eu cortei logo. – Vou cantar e, depois, coloco a letra na lousa. – Dei início à cantoria, já planejada havia algum tempo:

– ‘Toda vez que eu chego à escola, a palavra está prontinha aqui na minha boca’ – e repeti. – ‘E aí, substantivo, o que você vai fazer? Eu vou dar nome às coisas e também ao ser’ – Dei bis. ‘Está na gramática e a palavra é bela’, – quatro repetições. E esse meu dia teve uma boa influência da televisão, diferentemente do que imaginei no início da aula. Eu tive que prometer que praticaria o mesmo exercício musical com as outras classes gramaticais. Só sei que os alunos aprenderam. Então, valeu demais! Vocês não acham?



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O professor faz malabarismo para ensinar: canta, desenha, faz teatro, encena.....Hoje dançamos em sala de aula,conforme a música,conforme o clima,a tensão......

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