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São Paulo,14/02/2026

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Rosivaldo Casant

DÓ DO CÃO

E mais para o interior da estação, uma cena triste se desenhou: um cão, sem uma das pernas dianteiras, procurava uma brecha por onde pudesse sair daquele lugar

Tata Napolitano Casant (IA)
DÓ DO CÃO Cão perdido

DÓ DO CÃO


(Publicado em ONDAS DO RIACHO, em agosto de 1988)

Quando se tem um grupo de estudantes reunidos em um determinado lugar, é bastante normal que haja muita movimentação e barulho; basta lembrarmos dos tempos de escola, no recinto escolar ou no ponto de ônibus, indo ou vindo, era assim. Cutucava-se um, provocava-se outro e ria-se muito. Mas naquele dia, o pessoal estava com a corda toda, embora fosse, lógico, o acontecimento de todas as tardes na estação de trem em Artur Alvim. Eu estava chegando e a algazarra se completou. Os nossos pais ficariam escandalizados com seus filhos que falavam alto, gesticulavam para dar forma à fala, abraçavam-se fraternalmente e, alguns, de maneira mais carinhosa; sim, pois o caminho para a universidade em Mogi das Cruzes era longo e permitiu que nascessem grandes amizades e muitos romances. Até aí, nenhuma novidade. Consigo imaginar que, com algumas pinceladas em outras cores, o quadro pintado por quase todos nós em outros lugares é de matiz semelhante, seja pela tonalidade, gradação ou nuance. Não quero ser saudosista, mas que tempo bom foi aquele! Fomos felizes e sabíamos que, de fato, éramos; pois nossa geração conquistou o acesso à universidade e abriu as porteiras da oportunidade. Pena que trago as imagens daquele período no compartimento mais remoto da memória; mas a sensação de prazer que sentia ao fazer parte daquela cena, ainda conservo com a mesma intensidade.

Passamos a catraca, que era um eixo longitudinal com barras transversais, com função semelhante à porta giratória de banco; nem sei se ainda existe tal equipamento atualmente, pois faz muito tempo que não utilizo trens de subúrbio. Acessamos a plataforma (isso parece ter mudado muito pouco). E mais para o interior da estação, uma cena triste se desenhou: um cão, sem uma das pernas dianteiras, procurava uma brecha por onde pudesse sair daquele lugar; ia de um lado para o outro, totalmente atordoado com o barulho produzido pela multidão que aguardava a composição ferroviária para a diariamente acessada estação dos estudantes. Por várias vezes foi com o focinho ao chão, causando compunção em algumas das pessoas que tiveram o seu olhar capturado  pelo padecimento do animalzinho. O tempo transcorrido não foi mais que dois minutos; o suficiente, no entanto, para que se alojasse a pena nos corações ali presentes, como quase sempre ocorre quando nos deparamos com um episódio semelhante a esse. Logo veio a maldade do primeiro pontapé e a irritação de uma mulher que não se conformou com tamanha brutalidade e exigia a presença de alguma autoridade policial para coibir os maus tratos ao cachorro. Era um outro tempo e outras ameaças de chutes se configuraram, até que o pobre animal vislumbrou uma saída, saltando para os trilhos e correndo para longe daquele lugar, totalmente descrente da humanidade. Sem dúvida, foi uma tremenda crueldade, embora os tempos fossem outros. Os pets não eram vistos pela maioria das pessoas, mesmo os domésticos, como merecedores do olhar que recebem hoje. É certo que a mudança de visão se deu com o  crescimento de um mercado muito rentável que foi estabelecido com a proliferação de indústrias de ração animal, do surgimento de muitos cursos de medicina veterinária, da confecção de múltiplos acessórios e cuidados com cães, gatos e outros bichinhos de estimação, da importação de animais exóticos e o incentivo a um estilo de vida mais voltado às atividades naturais e à troca de filhos por pets, que, inclusive, já de algum tempo, vêm recebendo nomes que normalmente eram destinados aos seres humanos. O meu último animal foi a Nina. Uma outra foi a Hanna. Rin-tin-tin? Esquece. A gata de uma sobrinha era Zoe; Sarah é o nome da pet American Bully , de outra. Fui lembrado de um amigo que tinha o cão Carlinhos; um sobrinho tinha a Brenda; e uma colega tinha o Zé.

Tanta condescendência com os animais poderia nos sugerir pensar que  assim como ocorre com eles, com as pessoas do nosso entorno a afinidade seria até maior e que as trataríamos com respeito e consideração. No entanto, a experiência não é bem assim, uma vez que conhecemos famílias cujo relacionamento entre pais e filhos, nas duas mãos de tráfego, é bastante comprometido. Há casos em que a linguagem é no nível inferior do baixo calão (“baixo calão” é considerada por alguns como um pleonasmo, como “subir para cima”, mas é amplamente usada para dar ênfase). Vejam que não me oponho ao cuidado com os pets, de forma alguma; aliás, não só com eles, pois que toda a natureza, de uma maneira geral reclama cuidados. Incomoda-me ver que há pessoas invisíveis na  sociedade, para as quais nem é dispensado o dó (dó é do gênero masculino, portanto, o artigo é “o” mesmo) e lhes são reservados o anonimato, as sendas escuras da solidão e da degradação. O samba é de uma nota só, de Tom Jobim, nos diz muito quanto a pensarmos no semelhante como se ele fosse uma extensão de nós mesmos: “Eis aqui este sambinha feito numa nota só. Outras notas vão entrar, mas a base é uma só … sou a consequência inevitável de você. Quanta gente existe por aí que fala tanto e não diz nada, ou quase nada … E voltei pra minha nota como eu volto pra você. Vou cantar em uma nota como eu gosto de você. E quem quer todas as notas: Ré-Mi-Fá-Sol-Lá-Si-Dó, fica sempre sem nenhuma, fique numa nota só”. Deve haver a harmonia das notas, dos tons, do tratamento de todos os seres e coisas. Cuidar de todos e de tudo. Gosto do significado de dó como compaixão; e compaixão é o “sentimento piedoso de simpatia para com a tragédia pessoal de outro ser, acompanhado de desejo e motivação para aliviar e minorar a dor, envolvendo  compreensão, sentimento e ação”. O ano só está começando e não deveremos tocar só dó, mas na nossa pauta devem estar as demais notas do bem viver.



COMENTÁRIOS

Eu me lembro de alguns cães que passaram pela minha família: kub ( em homenagem a um presidente) , brinco, vermelho, peludo, totó, Lord, pingo, Beto, ...O vermelho, meu irmão encontrou no céu, mostrou-me em um sonho.

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