Seja bem-vindo
São Paulo,15/02/2026

  • A +
  • A -

Rosivaldo Casant

ANO NOVO, “MERDE”!

Primeiro de janeiro de 2026, ano da graça do Senhor, como costumavam pontuar os escrivães das caravelas portuguesas nos séculos das grandes navegações e nos seguintes também.

Tata Napolitano Casant (IA)
ANO NOVO, “MERDE”! Ano novo

ANO NOVO, “MERDE”!


Primeiro de janeiro de 2026, ano da graça do Senhor, como costumavam pontuar os escrivães das caravelas portuguesas nos séculos das grandes navegações e nos seguintes também. Escrevo de Ilha Comprida, não como degredado, mas por vontade própria de escapar da sanha demolidora do sossego dos invasores de Praia Grande. Sei que o turismo é importante e necessário e, ainda, que todos têm direito a ele, mas o rescaldo a ser realizado em seguida, debelando todos o focos de incêndio, perceptíveis ou não, é um trabalho hercúleo para a administração pública e se reflete na diminuição da qualidade de vida de quem mora numa estância balneária, pelo menos no período citado. O fato é que estamos num lugar mais tranquilo onde a passagem de ano se deu calmamente. Costuma-se dizer por aí o seguinte: “Ano novo, vida nova!” Será isso mesmo? Já vi muita crença e rituais aparecerem; mas vidas renovadas, bem poucas. O esforço para uma mudança é muito grande; por isso, é mais fácil exigir o cumprimento das promessas de outras pessoas do que apresentarmos transformação na própria vida.

As crendices populares brasileiras para atrair sorte, prosperidade e renovação do que nos cerca, são muitas. Entre as tradições mais praticadas está a de pular sete ondas do mar com o pé direito, fazendo um pedido a cada salto, sendo o rito, também, uma manifestação de agradecimento. O folclórico saci pererê teria dificuldades para fazer uso desse artifício de primeiro dia de ano, considerando que há controvérsias sobre se era a perna direita ou a esquerda que ele possuía. Como sabem,  fujo do politicamente correto, mas esse ritual parece bastante exclusório; senão para o referido personagem das lendas nacionais, que ainda poderia ter a possibilidade de se submeter ao exercício proposto, caso tivesse a perna exigida para obter a sorte; mas produziria constrangimento para o cidadão com a deficiência impeditiva.

Ainda falando de rituais, temos os relacionados às cores das roupas, inclusive das íntimas, para se conseguir atingir determinados objetivos. A cor branca, a mais tradicional para a ocasião, simboliza a paz e um recomeço equilibrado.  O amarelo atrairia dinheiro; o rosa, amor; o vermelho, paixão e o verde, esperança; desde que escolhidos para atrair sorte para áreas específicas, ou seja, a cor deve ter uma intenção, um direcionamento.

Recomendam-se comer lentilhas, pois ela se assemelha a  uma moeda e seu consumo garantiria fartura e prosperidade financeira no novo ano. Uma nota de dinheiro no bolso ou no sapato poderia atrair riqueza para o novo ciclo. Jogar flores brancas no mar ou em rios seria um gesto de gratidão e de pedidos de proteção (este ritual poderia ser num combo com o do pular as ondas - provavelmente o saci não teria problemas em arrumar as flores). Um banho de ervas com alecrim, arruda e manjericão serviria para limpar as energias negativas e renovar as vibrações. Beber espumante à meia-noite (três goles, com um pedido em cada), simboliza alegria e vida. Essa parte do espumante tem muito a ver comigo, muito embora tenhamos deixado de trazer um dos nossos da Praia Grande, mas eu tomarei no dia três, assim que chegar; e serão muitos goles, sem me importar muito com os pedidos). Enfim,  plantar uma semente, simbolizando crescimento, planejamento e continuidade no ano iniciado. Este último, deveria ser um rito de todas as pessoas do mundo; e não falo só de sustentabilidade com a manutenção e recuperação dos biomas, mas do amor sustentável, pois só ele pode aproximar almas, internalizar a ternura, esparramar a paz e transformar “a força da grana que ergue e destrói coisas belas”, cantada na canção Sampa, de Caetano Veloso, em empatia e solidariedade.

O título dado ao texto vem da pegada teatral de desejar que a estreia ou qualquer apresentação de uma peça seja apreciada por muita gente. A expressão “Je te dis merde”, nasceu no século XIX, na França. É assim: o público chegava de carruagens, e quanto mais merda (cocô de cavalo) na porta do teatro, mais concorrido o espetáculo era. Desejar merda era desejar que houvesse muito excremento de cavalos, revelando um grande número de  espectadores. Não se deve agradecer ao desejo expressado; deve-se responder “merda” ou, simplesmente ficar quieto, pactuando silenciosamente com o sucesso. Em nosso país fala-se muito palavrão, muito embora nos recolhamos ao recato quanto a esse fato e, hipocritamente, muita gente se comporte como se o impropério  não tivesse seu surgimento como qualquer outro termo,  daquilo que deve ser dito daquela forma e naquele momento e pronto! No caso específico de “merde” não é linguagem neutra, é como aparece no idioma francês e parece não precisar de maiores malabarismos de interpretação quando dizemos “o mundo é uma m…”; “isto está uma m…”, “ que negócio de m…”; “esse cara é um m…” e por aí segue para um tanto infinito de aplicações.

Já entrando num estado de purificação, mas sem nenhum arrependimento de ter tratado o assunto da forma como foi nesta crônica de número 90, reafirmo meus valores de Deus, família e amigos ocupando extensas áreas da planície florida do meu coração e, por isso, continuo otimista de que o que nos sobrevirá será um ano de muito trabalho; um pouco árduo, mas de muita riqueza espiritual, pois o pó continuará voltando ao pó e a alma  respondendo por seus atos e seus destratos a Deus. Ah, veja bem, não ficarei nem um pouco ofendido se alguém disser: não é que esse m… (no caso, eu) me deu a letra de que este novo ano pode ser muito bom! “Je te dis merde!



COMENTÁRIOS

Je te dis merde!Feliz 2026.

LEIA TAMBÉM

Buscar

Alterar Local

Anuncie Aqui

Escolha abaixo onde deseja anunciar.

Efetue o Login

Recuperar Senha

Baixe o Nosso Aplicativo!

Tenha todas as novidades na palma da sua mão.