Rosivaldo Casant
ANO NOVO, “MERDE”!
Primeiro de janeiro de 2026, ano da graça do Senhor, como costumavam pontuar os escrivães das caravelas portuguesas nos séculos das grandes navegações e nos seguintes também.
Ano novoANO NOVO, “MERDE”!
Primeiro de janeiro de 2026, ano da graça do Senhor, como costumavam pontuar os escrivães das caravelas portuguesas nos séculos das grandes navegações e nos seguintes também. Escrevo de Ilha Comprida, não como degredado, mas por vontade própria de escapar da sanha demolidora do sossego dos invasores de Praia Grande. Sei que o turismo é importante e necessário e, ainda, que todos têm direito a ele, mas o rescaldo a ser realizado em seguida, debelando todos o focos de incêndio, perceptíveis ou não, é um trabalho hercúleo para a administração pública e se reflete na diminuição da qualidade de vida de quem mora numa estância balneária, pelo menos no período citado. O fato é que estamos num lugar mais tranquilo onde a passagem de ano se deu calmamente. Costuma-se dizer por aí o seguinte: “Ano novo, vida nova!” Será isso mesmo? Já vi muita crença e rituais aparecerem; mas vidas renovadas, bem poucas. O esforço para uma mudança é muito grande; por isso, é mais fácil exigir o cumprimento das promessas de outras pessoas do que apresentarmos transformação na própria vida.
As crendices populares brasileiras para atrair sorte, prosperidade e renovação do que nos cerca, são muitas. Entre as tradições mais praticadas está a de pular sete ondas do mar com o pé direito, fazendo um pedido a cada salto, sendo o rito, também, uma manifestação de agradecimento. O folclórico saci pererê teria dificuldades para fazer uso desse artifício de primeiro dia de ano, considerando que há controvérsias sobre se era a perna direita ou a esquerda que ele possuía. Como sabem, fujo do politicamente correto, mas esse ritual parece bastante exclusório; senão para o referido personagem das lendas nacionais, que ainda poderia ter a possibilidade de se submeter ao exercício proposto, caso tivesse a perna exigida para obter a sorte; mas produziria constrangimento para o cidadão com a deficiência impeditiva.
Ainda falando de rituais, temos os relacionados às cores das roupas, inclusive das íntimas, para se conseguir atingir determinados objetivos. A cor branca, a mais tradicional para a ocasião, simboliza a paz e um recomeço equilibrado. O amarelo atrairia dinheiro; o rosa, amor; o vermelho, paixão e o verde, esperança; desde que escolhidos para atrair sorte para áreas específicas, ou seja, a cor deve ter uma intenção, um direcionamento.
Recomendam-se comer lentilhas, pois ela se assemelha a uma moeda e seu consumo garantiria fartura e prosperidade financeira no novo ano. Uma nota de dinheiro no bolso ou no sapato poderia atrair riqueza para o novo ciclo. Jogar flores brancas no mar ou em rios seria um gesto de gratidão e de pedidos de proteção (este ritual poderia ser num combo com o do pular as ondas - provavelmente o saci não teria problemas em arrumar as flores). Um banho de ervas com alecrim, arruda e manjericão serviria para limpar as energias negativas e renovar as vibrações. Beber espumante à meia-noite (três goles, com um pedido em cada), simboliza alegria e vida. Essa parte do espumante tem muito a ver comigo, muito embora tenhamos deixado de trazer um dos nossos da Praia Grande, mas eu tomarei no dia três, assim que chegar; e serão muitos goles, sem me importar muito com os pedidos). Enfim, plantar uma semente, simbolizando crescimento, planejamento e continuidade no ano iniciado. Este último, deveria ser um rito de todas as pessoas do mundo; e não falo só de sustentabilidade com a manutenção e recuperação dos biomas, mas do amor sustentável, pois só ele pode aproximar almas, internalizar a ternura, esparramar a paz e transformar “a força da grana que ergue e destrói coisas belas”, cantada na canção Sampa, de Caetano Veloso, em empatia e solidariedade.
O título dado ao texto vem da pegada teatral de desejar que a estreia ou qualquer apresentação de uma peça seja apreciada por muita gente. A expressão “Je te dis merde”, nasceu no século XIX, na França. É assim: o público chegava de carruagens, e quanto mais merda (cocô de cavalo) na porta do teatro, mais concorrido o espetáculo era. Desejar merda era desejar que houvesse muito excremento de cavalos, revelando um grande número de espectadores. Não se deve agradecer ao desejo expressado; deve-se responder “merda” ou, simplesmente ficar quieto, pactuando silenciosamente com o sucesso. Em nosso país fala-se muito palavrão, muito embora nos recolhamos ao recato quanto a esse fato e, hipocritamente, muita gente se comporte como se o impropério não tivesse seu surgimento como qualquer outro termo, daquilo que deve ser dito daquela forma e naquele momento e pronto! No caso específico de “merde” não é linguagem neutra, é como aparece no idioma francês e parece não precisar de maiores malabarismos de interpretação quando dizemos “o mundo é uma m…”; “isto está uma m…”, “ que negócio de m…”; “esse cara é um m…” e por aí segue para um tanto infinito de aplicações.
Já entrando num estado de purificação, mas sem nenhum arrependimento de ter tratado o assunto da forma como foi nesta crônica de número 90, reafirmo meus valores de Deus, família e amigos ocupando extensas áreas da planície florida do meu coração e, por isso, continuo otimista de que o que nos sobrevirá será um ano de muito trabalho; um pouco árduo, mas de muita riqueza espiritual, pois o pó continuará voltando ao pó e a alma respondendo por seus atos e seus destratos a Deus. Ah, veja bem, não ficarei nem um pouco ofendido se alguém disser: não é que esse m… (no caso, eu) me deu a letra de que este novo ano pode ser muito bom! “Je te dis merde!”




COMENTÁRIOS
Vera
em 02/01/2026
Je te dis merde!Feliz 2026.