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São Paulo,14/02/2026

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7 de abril, dia mundial da saúde: o Grito das Metrópoles pela Vida

A relação entre saúde pública e meio ambiente não é nova, mas nunca foi tão urgente quanto agora revela em entrevista o Professor Paulo Saldiva.


7 de abril, dia mundial da saúde: o Grito das Metrópoles pela Vida

A relação entre saúde pública e meio ambiente não é nova, mas nunca foi tão urgente quanto agora. É o que defende o médico patologista e professor Paulo Saldiva, uma das maiores autoridades brasileiras em poluição atmosférica e saúde urbana. Em entrevista exclusiva ao Portal Sensus Notícias, Saldiva traça um panorama histórico e atual dos impactos do meio ambiente na saúde humana — e alerta: sem políticas públicas que articulem urbanismo e preservação ambiental, as cidades estarão cada vez mais doentes.

Saldiva, professor titular da Faculdade de Medicina da USP e membro do comitê de qualidade do ar da OMS, é também pesquisador da Universidade de Harvard. Com décadas de experiência analisando o impacto das metrópoles na saúde, ele lembra que o conhecimento sobre os riscos ambientais remonta à Antiguidade, ainda que envolto em mitos. “Antigamente se atribuía a doenças uma influência divina. A medicina era praticada em templos. Mas com o crescimento das cidades, percebemos que o saneamento básico era fundamental para conter doenças como malária, cólera e peste bubônica”, afirma.

Essa compreensão originou o sanitarismo, movimento que moldou o planejamento urbano moderno — muitas vezes com viés autoritário, como Saldiva recorda ao citar a quarentena imposta a navios no Mediterrâneo medieval e a Revolta da Vacina, no Rio de Janeiro de início do século XX. “As pessoas perdiam suas casas e ainda eram forçadas a se vacinar. Muitos dos desalojados eram ex-combatentes de Canudos. Foram morar nos morros e ali nasceu o termo ‘favela’, associado à planta da região nordestina onde combatiam”, explica o professor, traçando a gênese da desigualdade urbana brasileira.

Ambiente urbano: o novo vetor de doenças

Hoje, os riscos à saúde não se limitam a mosquitos e ratos. Estão na poluição do ar, nas ilhas de calor, nas enchentes e na crise hídrica. “Fumamos sem querer todos os dias. A seca afeta a produção de alimentos. O sistema de saneamento é precário. Quando há queda na pressão da água, o encanamento suga a contaminação do solo”, alerta.

Além das doenças infecciosas, há um novo capítulo: os transtornos mentais. “Quem perde tudo numa enchente, vê sua casa desabar, sua história desaparecer, entra em depressão, vive ansiedade. Isso também é doença ambiental”, diz Saldiva, com a serenidade de quem vê o caos com os olhos de um cientista.

A presença de doenças outrora restritas à zona rural ou à floresta — como a febre amarela ou a leishmaniose — dentro das cidades é outro sinal do colapso ambiental. “O desmatamento força os animais a migrarem para áreas urbanas. Os macacos, hospedeiros da febre amarela, passaram a buscar alimento perto de centros urbanos, e a doença chegou à zona norte de São Paulo pela primeira vez”, afirma.

O que fazer? O caminho está nas cidades

Questionado sobre o que é mais urgente — combater as mudanças climáticas ou fortalecer a infraestrutura urbana —, Saldiva é enfático: “Começaria pela infraestrutura. Corrigir erros de ocupação do solo, criar incentivos para soluções descentralizadas, como pequenas piscininhas nas casas em vez de piscinões. Muitas vezes, isso sai mais barato e mais eficiente”.

Para o pesquisador, as cidades são o campo de batalha mais acessível. “O prefeito pode muito: regula o transporte, define o plano diretor, decide onde construir. Pode reocupar prédios abandonados no centro e tirar as pessoas das áreas insalubres das periferias”, afirma. Ele defende ainda o uso do estatuto da cidade e da concessão onerosa como instrumentos para envolver a iniciativa privada. “O governo não tem dinheiro para fazer tudo. Mas pode dar incentivos e exigir contrapartidas”, completa.

Um chamado à ação política e cidadã

A entrevista com Paulo Saldiva revela uma verdade incontornável: cuidar do meio ambiente é cuidar da saúde. “Não é uma questão de escolha entre clima ou saúde urbana. Tudo está interligado. Mas temos que começar por onde temos mais poder de ação. E esse lugar é a cidade. O território onde vivemos pode ser remédio ou veneno — depende de como decidimos construí-lo”, conclui.













Diante da crise ambiental e sanitária, o alerta do professor se impõe como um chamado à ação — para governos, cidadãos e para a imprensa: sem cidade saudável, não há vida saudável.


Assista a seguir um trecho da entrevista:





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