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São Paulo,14/02/2026

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Saudade pode aliviar sintomas da depressão, indica estudo.

O estudo foi feito com pessoas sem diagnóstico formal de transtornos mentais, mas que relataram prejuízos emocionais por conta da autocrítica.


Saudade pode aliviar sintomas da depressão, indica estudo.

Um estudo publicado em janeiro na revista Frontiers in Psychology aponta que o sentimento de saudade pode contribuir para a redução de sintomas depressivos. A pesquisa foi inspirada na bossa nova e na forte presença desse sentimento na cultura brasileira.

“Entendemos que a saudade funciona como um canal de reconexão afetiva. Ela ativa lembranças significativas, muitas vezes ligadas a vínculos e momentos positivos, o que pode suavizar emoções negativas como a culpa e a autodepreciação”, explica o neurocientista Jorge Moll Neto, idealizador do projeto IDOR Ciência Pioneira e um dos autores do estudo, realizado em parceria com o King’s College London.

Segundo Moll, há evidências de que sentimentos como a nostalgia e a saudade fortalecem o senso de continuidade do eu, além de promoverem pertencimento e aceitação – fatores reconhecidos como protetores contra a depressão.

Um sentimento pouco explorado

A ideia da pesquisa surgiu a partir da percepção de que, apesar de ser comum no Brasil, a saudade é pouco abordada na psicologia clínica. “Costuma ser encarada como uma emoção melancólica, mas também envolve amor, conexão e significado. Por isso, acreditamos que pode ser um sentimento adaptativo”, afirma Moll. “Nossa hipótese é que a saudade pode ser um recurso emocional útil na psicoterapia, especialmente para pessoas com altos níveis de autocrítica, mais vulneráveis à depressão.”

O que é saudade?

Para a psicóloga Fátima Bertini, doutora e professora da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), a saudade é uma vivência afetiva profunda que envolve ausência, desejo e memória. “Ela se refere a algo ou alguém significativo que está distante ou ausente no presente. É mais do que a falta – é uma presença constante na memória e nos sentimentos”, explica.

Fátima destaca que a saudade é um sentimento ambíguo, pois pode provocar tanto dor quanto carinho. “Só a língua portuguesa reconhece essa peculiaridade: a saudade é uma tristeza pela lembrança, mas também carrega uma potência de alegria. Ela é dor pela ausência, mas também alegria por algo que foi bom. A saudade não se resume à tristeza – ela traz a força positiva da memória afetiva”, afirma.

Como foi feito o estudo?

Na pesquisa conduzida pelo IDOR e pelo King’s College London, 39 voluntários criaram vídeos pessoais de cerca de 10 minutos, reunindo fotos, músicas e imagens que evocassem sentimentos de autocrítica, tristeza e, por fim, saudade. Os participantes assistiram aos vídeos diariamente durante uma semana.

“O objetivo era permitir que, ao revisitar emoções difíceis, como a tristeza e a autocrítica, os participantes pudessem ressignificá-las ao acessar a saudade – um sentimento mais afetuoso e construtivo”, explica Moll.

Antes e depois da intervenção, os voluntários responderam a questionários padronizados, incluindo o Inventário de Depressão de Beck. Os resultados mostraram uma redução significativa nos sintomas depressivos, além de melhora nos níveis de autocrítica.

“Isso reforça a ideia de que a saudade pode atuar como um modulador emocional positivo, ajudando a regular emoções dolorosas. A adesão ao estudo foi alta e não houve relatos de efeitos adversos, como aumento da angústia”, afirma o neurocientista. Nenhum participante solicitou ajuda psicológica durante o experimento.

Limitações e próximos passos

O estudo foi feito com pessoas sem diagnóstico formal de transtornos mentais, mas que relataram prejuízos emocionais por conta da autocrítica. Os voluntários foram recrutados por redes sociais e e-mails, e as etapas iniciais ocorreram online, em 2021, durante a pandemia de covid-19.

Uma limitação foi o desequilíbrio de gênero entre os participantes – a maioria era composta por mulheres, o que impediu análises comparativas mais precisas. Para as próximas etapas, os pesquisadores planejam ampliar a diversidade da amostra e realizar ensaios clínicos randomizados com pacientes diagnosticados com depressão.

















Os cientistas também pretendem investigar os mecanismos cerebrais ligados à saudade, utilizando ferramentas como a ressonância magnética funcional. Além de Jorge Moll, o estudo contou com a participação de Nahed Lajmi, Suqian Duan e Roland Zahn, do Instituto de Psiquiatria, Psicologia e Neurociência do King’s College London.





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